O Repente

Criatividade, rapidez de raciocínio, habilidade com as palavras e interação com a plateia são palavras que resumem essa arte maravilhosa, o Repente!  

O Repente, também chamado de Cantoria, se caracteriza pela ação dos cantadores que, em dupla, tocam violas nordestinas com afinação específica e cantam, alternadamente, estrofes rimadas compostas no momento da apresentação. São utilizadas estruturas pré-definidas com relação à métrica e melodias pré-existentes – “toadas”-, que são compartilhadas por esses artistas. A Cantoria é uma manifestação cultural originária da região Nordeste do Brasil. É muito comum nas localidades regionalmente chamadas de sertão, cariri e agreste. Sua ocorrência se enraizou também nas zonas metropolitanas das capitais Salvador, Maceió, Aracaju, Recife, João Pessoa, Natal, Fortaleza, Teresina, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Essa expansão de sua área de ocorrência se deve à grande migração de nordestinos das zonas rurais para as capitais.

A Cantoria ocorre também, em menor escala, em capitais de outros estados como Rondônia e Goiás, devido à presença de nordestinos e descendentes. É comum entre os cantadores de destaque aqueles que somam viagens internacionais e apresentações em eventos de grande repercussão.

As violas são usadas como acessórios para a transmissão musical da criação poética, elemento principal dessa manifestação cultural. Alguns atributos como timbre, afinação e volume de voz, ritmo de canto, velocidade de criação e habilidades cênicas de interação com a plateia e o outro cantador, como postura, gesticulação e olhar, também constituem elementos agregadores de valor para que artistas do Repente sejam reconhecidos como bons cantadores pelos demais cantadores e pelo público. Em geral, enquanto um artista canta sua estrofe o outro o acompanha com a viola ao mesmo tempo em que compõe sua estrofe seguinte ou, pelo menos, planeja a “queda” (final da estrofe) para evitar erros durante o canto e não demorar de uma estrofe para outra, mantendo um ritmo dinâmico durante a apresentação.

A qualidade das estrofes é aferida, principalmente, por três fatores: métrica, rima e oração. A métrica diz respeito ao número de versos e de sílabas poéticas tônicas e atônicas de cada estrofe. A oração é entendida como a atinência ao tema abordado, considerando-se a sequência lógica das palavras, a criatividade do artista e a profundidade e a amplitude da abordagem. As rimas aceitas pelos profissionais do Repente são, raras exceções, as rimas perfeitas, coincidentes em sonoridade e grafia, ou seja, as sílabas que constituem a rima devem ser escritas da mesma maneira a partir da vogal tônica entre as palavras rimadas, por exemplo: específico rima com magnífico e fé rima com pé, mas, mingau não rima com legal e Amazônia não rima com vergonha.

Para a construção dos versos do Repente são consideradas as sílabas poéticas, também chamadas pelos cantadores de sílabas rítmicas, que podem ser constituídas por uma, duas ou três sílabas gramaticais. Por exemplo, o verso de dez sílabas ortográficas “Uma pérola azul brilhante”, possui sete sílabas poéticas conforme exemplificado a seguir:

U- / ma / pé- /rola a- / zul / bri- / lhante

1         2       3       4             5       6       7

Existem mais de 30 modalidades no Repente. De acordo com a modalidade, os versos podem ser de 4, 5, 7, 10 ou 11 sílabas rítmicas e as estrofes, em maioria, são compostas por 6, 7, 8 ou 10 versos cada. Em certas modalidades, alguns dos versos componentes das estrofes são pré-definidos, com os quais são rimados versos improvisados. Entre as modalidades mais usadas estão: Sextilhas; Mote de Sete Sílabas; Mote Decassílabo; Martelo Agalopado; Galope à Beira-Mar; Mourão; Quadrão Perguntado; Sete Linhas; e Coqueiro da Bahia.

Os temas abordados nas apresentações de repentistas podem ser tanto escolhidos pelos próprios cantadores como solicitados pela plateia, sendo a segunda opção uma característica que confere credibilidade aos artistas, pela qual se comprova a prática da improvisação na criação poética, e intensifica o caráter interativo dessa manifestação artística, onde os rumos temáticos de uma apresentação são definidos predominantemente pela plateia, ficando a cargo dos artistas o tom e os enfoques da abordagem dos temas.

Os principais tipos de apresentação da Arte do Repente podem ser classificados como: cantorias de pé-de-parede, o modo mais tradicional de manifestação do Repente; festivais, geralmente competitivos; programas de rádio e de TV; e apresentações ou shows em eventos diversos.

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